12 de dezembro de 2013

Mais de 600 obras de arte. E não é museu

A vista é incrível de qualquer janela do apartamento – até do closet! Mas precisa de vista? Do lado de dentro, reina uma paisagem fantástica de um mundo povoado por uma profusão de objetos que conferem um quê de realismo mágico. São bonecos representando mulheres vestidas de noiva, cozinhando, vaqueiros e seus bois, cangaceiros, bandas de pífano, carrancas, leões, onça, macaco, hordas de elefantes (600, na verdade), entre outros bichos, além de totens, anjos e mais anjos, alguns enormes, santos e mais santos... As peças reproduzem a poética do cotidiano, os saberes e fazeres de povos produzidos por artistas de todo o país, a maioria reconhecidos como mestres-artesãos, ou seja, expoentes da arte popular.

Esta é a expressão artística que se destaca no acervo do morador deste apartamento em Recife, mas a eclética coleção é formada ainda por máscaras africanas, peças de arte popular da Ásia e da América Latina, mobiliário clássico, pequenos Laliques, sopeiras e talheres antigos, além de pinturas de artistas como Tereza Costa Rêgo e Cícero Dias. Acomodar essa exuberância de objetos exigiu um projeto com alto grau de desafio. A missão coube a Turíbio e Zezinho Santos, dupla de arquitetos célebres na cidade.
  (Foto: Rogério Maranhão)

O imóvel foi comprado na planta e os originais dois apartamentos por andar foram unidos, resultando em 450m² destinados ao único morador e sua coleção. Para desenvolver os suportes das peças, “fotografamos, medimos e catalogamos todas”, conta Turíbio. O morador definiu o chamado zoneamento, indicando as obras que gostaria que recebessem mais ou menos destaque. “Fizemos o papel de maestro, de coordenação para gerar harmonia. A curadoria, de fato, foi dele”, diz Turíbio. O colecionador queria, por exemplo, que as belíssimas obras de Mestre Vitalino, artista pernambucano com peças no Museu do Louvre, em Paris, pudessem ser admiradas de todos os ângulos, mas protegidas de eventuais acidentes. Os arquitetos então criaram vitrines envidraçadas em volta das quais se pode circular e apreciar as obras. Aliás, para as menores de tamanho e maiores em valor, a dupla optou pelas vitrines com fundo espelhado e iluminação especial.

As demais obras, como esculturas e totens de madeira – um deles, trabalho do Mestre Cornélio, do Piauí, com altura de 2,50 m –, foram organizadas “às vezes por tamanho, às vezes por perfil, às vezes por cor”, sempre com a preocupação de manter um espírito de casa, de lar, e não galeria ou museu. Como suporte, Turíbio e Zezinho se valeram também de aparadores, mesas e até um lustre. Sobre a longa mesa de jantar, a luminária expõe uma coleção de santos de madeira de todo o Brasil.
  (Foto: Rogério Maranhão)
O morador não recebe muitos hóspedes – o closet do quarto para as visitas, por exemplo, virou a sala da coleção latino-americana –, mas ele convida muitos amigos, além de ter filhos e netos, para jogar conversa fora e provar seus quitutes. Ganhou, portanto, uma área gourmet, onde transita entre dois painéis de Francisco Brennand e quadros de Siron Franco e Aldemir Martins.

Para completar o devaneio inspirado por esse acervo mágico, o visitante espia a paisagem externa e se sente em outra viagem: num navio, com todas as janelas apontadas para o horizonte e o mar.

* Matéria publicada em Casa Vogue #334 (assinantes têm acesso à edição digital da revista)
  (Foto: Rogério Maranhão)
 
  (Foto: Rogério Maranhão)
 
  (Foto: Rogério Maranhão)
 
  (Foto: Rogério Maranhão)
 
  (Foto: Rogério Maranhão)

[Globo]

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Digite aqui seu comentário.